sábado, 17 de outubro de 2009

Companheiro de solidão.

Havia um homem.
Ele começou a olhar as pessoas a sua volta e percebeu que elas não estavam a sua volta. Este homem acordava sempre às cinco horas da manhã, colhia todos os dias cinco flores, e as dava as cinco primeiras pessoas que via na rua, e dessas, pelo menos três a jogava no chão nos primeiros onze passos, e ele sabia que as outras duas apenas não jogavam porque sabiam que ele estava olhando e podia magoar o pobre homem solitário.
O homem entrou em sua casa, colocou um disco de vinil para tocar e se sentou na varanda, mas percebeu que a voz de Nat não estava tão doce como sempre. Achou que o problema era na vitrola, pois já estava velha, mas viu que não, o problema era no ambiente. Havia tantas televisões ligadas em seus vizinhos, que não sabia como podem ter tantas, em tão alto volume, em tão poucas casas. Começou a lembrar da visão que tinha das pessoas quando as olhava de sua janela a tarde, tão ligeiras entre seus compromissos e afazeres que era capaz de nem perceberem em que estação do ano estavam. E agora estão perdendo suas vidas vendo um programa falso e notícias modificadas.
Um novo dia, cinco novas flores, cinco novas pessoas. Hoje quatro pessoas a jogaram no chão. Ao invés do homem ir para sua casa, como sempre faz, ele decidiu fazer outra coisa.
Foi à praça, se sentou na escada da igreja e começou a contar histórias para ninguém.

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Não é o fim, rlx.

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