sábado, 21 de novembro de 2009

Tão claro que não enxergo.

"Me levantei, fui para casa."

Ao chegar em casa tive a tão esperada bronca, mas fiz o que sempre faço, desliguei meus ouvidos, e dessa vez, também minha voz. Fui para o meu quarto deitei na cama e comecei a chorar, e a pensar. Apesar de triste eu sentia que não estava chorando apenas pela história. Fui até a janela do meu quarto, que dava para a rua, a paisagem era bloqueada pelos prédios, muitos e altos. Lembrei que quando eu era criança pegava um banquinho, sentava aqui nessa janela e ficava ligando as janelas dos prédios formando desenhos, coisa de criança. Mas hoje, não olhei as centenas de janelas, olhei para baixo, para as pessoas, histórias ambulantes que sequer pensaram em atingir alguém, histórias que poderiam nos atingir como a chuva, ou como um tiro. Histórias que poderiam fazer com que não se precisasse errar, para aprender. Histórias que irão morrer, sem ninguém saber. Eu sentia que precisava fazer algo, mas não tinha a mínima idéia do que fazer.
No dia seguinte não fui a escola, quer dizer, sai de casa mas não cheguei a ela. Sentei na praça. Não no intuito de ver o homem, até porque era muito cedo para ele aparecer ali. Na verdade eu estava apenas procurando alguma luz. Sentou uma mulher ao meu lado, tentei começar uma conversa, nervosa porque eu não falo constantemente com estranhos sem motivo, mas até que consegui manter a conversa em um ritmo agradável, falamos do tempo, de flores e ela me falou de seus filhos que estão crescendo muito rápido, acho que todos os pais devem pensar isso. Ela foi embora, mais eu continuei, no mesmo lugar. Um rapaz se sentou ao meu lado, e tentei novamente começar uma conversa, e consegui, me surpreendi comigo, me considerava uma pessoa quieta, não achei que conseguiria, e o mais engraçado é que eu estava gostando disso.
Não sei com quantas pessoas falei nesse dia, mas fiquei sentada ali por horas, e nessas horas descobri muitas coisas. Descobri que um "bom dia" pode virar uma teoria matemática, uma crítica a política ou até um conselho para a vida; descobri que as pessoas não são tão caretas e ignorantes, ou são, mas apenas por fora, acho que as pessoas tem medo de se apresentar como elas realmente são porque (novamente) desde quando nascemos somos educados para darmos muito valor ao que as pessoas pensam, então mesmo sem seguir padrões, se seguem padrões. Me senti muito melhor depois disso, vi que existem pessoas que se assemelham a mim, algo que eu duvidava bastante, e vendo isso pensei se eles também concordariam comigo, sobre as histórias perdidas. Suspeitava que sim, e apenas por essa suspeita continuei ali, mas agora com uma objetiva missão.


____
História com início em "Companheiro de Solidão"

Nenhum comentário:

Postar um comentário