segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Destinado.

“Foi à praça, se sentou na escada da igreja e começou a contar histórias para ninguém.”

Ele chegou, viu que a sua presença naquela praça não fazia a mínima diferença para as pessoas, ninguém o notava lá, a não ser os pombos que o rodeava na vã esperança que ganharem alguma migalha de algo. Ele começou a contar sua primeira história. Quando fugiu de casa quando era adolescente junto com o seu melhor amigo, pois ele nunca conseguiu entender as pessoas e seus sistemas. Não queria o luxo que a sua família lhe proporcionava, e sim uma vida emocionante, cheia de aventuras e surpresas. Essa história podia ter dois finais: em um, os seus pais, após dois dias de procura e muito suor de equipes de busca os acharam em uma pensão barata em uma cidade vizinha; no outro final, eles estavam em uma cidade a noventa e cinco quilômetros da cidade em que nasceram, chegaram, arrumaram um emprego e com os salários começaram um próprio negócio vendendo discos de vinil, paixão compartilhada entre o homem (no caso adolescente) e seu melhor amigo. O que tangenciava esses dois desfechos eram três simples moedas. Sim, apenas três moedas. O adolescente estava tão endiabrado com adrenalina de fugir de casa que se esqueceu de pegar o dinheiro. O tinha apenas para sua passagem de ônibus e a de seu amigo, que não tinha dinheiro algum. Ele e seu amigo quando estavam no ponto decidindo seu destino, entraram em um impasse, ele queria ir para o norte, seu amigo queria ir para o sul. Para resolver eles jogaram uma moeda no ar no intuito que a cara ou o coroa decidissem aonde iriam, mas a moeda rolou, rolou, e caiu em um bueiro. Com o dinheiro que tinham agora poderiam apenas ir para a cidade vizinha, idéia que seu amigo aprovou: ir a cidade vizinha, arranjar algum dinheiro e continuar seu caminho; porém o adolescente reprovou: se fosse para fugir, não queria nem lembrar que a sua cidade existia. Se o adolescente tivesse aceitado, se ele não houvesse se importado, se ele não houvesse ouvido a voz de sua cabeça que dizia para não irem, o desfecho teria sido o primeiro citado.

(Dois garotos de rua estavam vigiando os carros de um estacionamento público em troca de algumas moedas, porém a mãe deles chegou. Ela deu-lhes um sermão em alto e bom som e pelas orelhas os arrastaram para casa.)

O adolescente e seu amigo estavam andando para ver se achavam alguma moeda caída, quando viram que era uma atividade inútil pararam na frente de um estacionamento público e se sentaram, seu amigo lhe convencendo a pegar o ônibus para a cidade vizinha, e ele protestando seriamente. Até que uma mulher ao chegar ao seu carro, sem nenhum motivo aparente, deu uma moeda para cada. Com muita felicidade e surpresa, eles pegaram um ônibus para o norte, pois após isso, seu amigo não conseguia mais duvidar de sua opinião. A partir daí você já sabe o desfecho restante.

Após terminar de contar essa história para o ninguém, o homem parou, e após essa brisa de nostalgia que o havia consumido, viu o quanto tinha a agradecer aos dois meninos de rua que ali estavam. Mais uma história que ninguém iria saber. Mais uma. Quando terminou, viu que algumas pessoas o estava olhando com certa indignidade nos olhos, como se ele fosse dominado por uma boa insensatez. Mal elas sabiam o quanto o homem ria por dentro ao saber quem eram os verdadeiros loucos ali. Despediu-se dos pombos e foi para casa.


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To be continue. =]

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