sábado, 7 de novembro de 2009

Tão escuro que passo a ver.

“Despediu-se dos pombos e foi para casa.”


Ao chegar em casa comeu algo e pegou um livro, começou a passar os olhos por ele tentando enganar a si mesmo que estava lendo, mas os seus pensamentos estavam tão longe que não conseguia se concentrar na leitura. Pensou seriamente em não voltar mais a praça, mas no dia seguinte, uma das cinco pessoas premiadas era uma garotinha, que sob o olhar de negação da mãe, além de aceitar com um lindo sorriso a flor, lhe agradeceu gentilmente. Algo simples não? Não. Isso foi o suficiente para fazer o homem voltar à praça naquele dia, lembrou que as pessoas não estão perdidas afinal.
Voltou à praça, se sentou no mesmo lugar e começou a contar sua segunda história.

Sobre o dia em que começou a odiar promessas. Como apenas em filmes e novelas o humor está relacionado ao clima, estava fazendo um dia lindo ensolarado, porém o homem (agora um rapaz), não conseguia vê-lo. Nem o dia mais lindo do mundo adiantaria agora.

(uma garota veio e sentou a sua frente)

Essa história é sobre o dia em que o homem começou a odiar promessas, e como apenas em filmes e novelas o clima condiz com o humor, estava um dia ensolarado, mas não que isso mudasse alguma coisa.
O rapaz estava sentado em uma cadeira ao lado da cama e seu amigo sobre ela. Se não for o pior sentimento do mundo, chega muito perto, daqueles que você não faz a mísera idéia, a não ser que tenha passado pela situação. Ele sabe que vai morrer, você sabe que ele vai morrer e ambos sabem que não podem fazer absolutamente nada. Não sabiam exatamente quando, mas sabiam que não faltava muito tempo. Já havia passado algum tempo, nenhum dia sequer o seu amigo acordou, sem ver o rapaz ao seu lado para conversarem. Seu amigo lhe dizia para parar de questionar, que Deus sabe o que faz, mas aquela situação fez com que o rapaz se abalasse a ponto de duvidar de sua existência por apenas um minuto. Seu amigo perguntou se ele poderia lhe prometer que faria algo. O rapaz olhou para o amigo indignado por ele pedir. Era lógico que ele prometeria fazer qualquer coisa que ele quisesse, não importa o que seja. Novamente o amigo lhe perguntou se ele prometeria fazê-lo, não importa o que fosse, e o rapaz confirmou sem dúvidas. Erro. Seu amigo pediu para o rapaz pegar as economias da loja de discos e viajar, disse que não queria que ele o visse morrer. O rapaz indignado se negou, nunca iria abandoná-lo naquele momento, não naquele momento, não com tão pouco tempo. Mas o amigo lhe disse: Mas você fez uma promessa. O rapaz não sabia o que fazer, promessas para ele eram irreversíveis, e seu amigo sabia disso. Na verdade, só restava uma coisa a fazer. No dia seguinte, com os olhos inchados de tanto chorar a noite, o rapaz fez suas malas, deu instruções para uma amiga de confiança sobre o funeral, e viajou para outra cidade, onde passou três meses, os piores três meses. Quando voltou, entrou no seu apartamento que ficava em cima da loja, que silêncio mortal. Recordou-se de todas as lembranças, o dia da fuga, as festas, o que aprontavam, os conselhos. Começou a chorar e comprovou por experiência própria que não existe um limite de lágrimas em um homem. Foi ao quarto. O ninguém, mas não o nada. Havia um papel em cima da cama, e sim, o rapaz também achou que era uma carta. Mas não parecia com uma carta, estava mais para lembrete ou uma pequena lista:


“Não chore mais, viva e mude a vida das pessoas, assim como fez com a minha.
Perdoe-me pela promessa.
Cuide bem de meus discos do Mr. King Cole.
E não me leve flores, as pessoas precisam mais delas do que eu.”
Literalmente, seu eterno amigo.


Após ler, fez tudo o que seu amigo havia lhe escrito.
O rapaz continuou tocando a loja de vinis, mas infelizmente, as notas dos discos não tinham mais cor.
Após contar essa história o homem acordou e viu que a garota ainda estava sua frente, se despediu dela e foi para casa.



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História com início em "Companheiro de Solidão"

Um comentário:

  1. Quando voltou, entrou no seu apartamento que ficava em cima da loja, que silêncio mortal. Recordou-se de todas as lembranças, o dia da fuga, as festas, o que aprontavam, os conselhos.

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    Despedidas mexem comigo. Muito bom todo o conto, parabéns.
    Ah, fiz novo blog, tinha perdido o login do outro, então considere apenas esse agora.

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